
Ana Cañas não gosta de rótulos. "Sou uma amante da liberdade artística", levanta sua bandeira. É por isso que seu novo disco, "Hein?", soa tão inquieto com suas influências. A Ana Cañas que despontou na cena paulistana cantando standards de jazz agora também é rock, é reggae, é pop e é música brasileira. "Eu tenho uma preocupação em não ficar 'enlatada', que faz parte da minha personalidade. Não gosto da idéia de resumo, de agora me chamarem de rock. Gosto da pluralidade", diz a cantora em entrevista por telefone.
"Hein?", segundo disco da carreira ainda curta de Ana Cañas, chega às lojas sob a produção de Liminha e com 11 faixas de autoria própria, além de uma releitura para "Chuck Berry Fields Forever", do Gilberto Gil de "Doces Bárbaros" (1974). A irreverência da cantora e a força de sua intepretação dialogam com eloquência nos 56 minutos do disco. "O nome do CD significa uma vontade de comunicação. Você não pode dizer 'hein?' para alguém que você não esteja realmente interessado em compreender uma informação", afirma.
O primeiro trabalho da cantora de 28 anos, "Amor e Caos", foi lançado no final de 2007 com uma sonoridade que não traduzia o verdadeiro potencial de Ana Cañas. "Aquele é um disco auto-afirmativo demais, a ponto de eu escrever uma música chamada 'A Ana'. Eu poderia ter sido mais ampla nos questionamentos, mas existe uma tranquilidade de entender que foi o que a minha maturidade me permitiu fazer naquele momento", explica.
Com "Hein?", Ana enfrentou a temida pressão do segundo disco e desafiou seu próprio repertório, com novas composições e novos rumos para sua música. "Você lança o primeiro disco e é 100% nova, as pessoas não te conhecem. No segundo álbum existe uma relação referencial com o anterior e o que você vai negar, reafirmar e criar. Esse segundo CD é mais relaxado, no sentido de não precisar me auto-firmar. É mais intenso e rígido na sonoridade", descreve.
Para construir seu novo disco, Ana mergulhou na obra d'Os Mutantes e pincelou dali algumas influências que aparecem em "Hein?". A faixa de abertura, "Na Multidão" (que tem participação de Arnaldo Antunes), é a que melhor deixa transparecer toda a inspiração em Rita Lee. "Mutantes tem uma obra muito sofisticada. E a Rita é uma mulher que tem uma carreira sólida e que sempre soube o que queria, de uma forma leve. Ela mostra como o brasileiro é muito bem humorado".
Ana também é bem humorada, mas a primeira música de trabalho do novo disco, "Esconderijo", traz a frase "procuro a solidão como o ar procura o chão", que soa como paradoxo num registro em que predominam vontades como diversão, dançar, planejar fuga e ficar mais louca. "Na verdade, eu fiz essa música pensando em paixão. Sabe quando você está num momento de monotonia na vida e, de repente, você se apaixona por alguém e tudo muda? Tem um universo que começa a gravitar em torno da pessoa. 'Esconderijo' é um refúgio e uma abertura da troca".
Aqui, Ana se entrega à interpretação sem ser superficial ou blasé. Ela brinca com os sons, faz scats --improvisos vocais com sílabas sem sentido-- e usa sua voz como mais um instrumento da banda. "Tenho essa mania de ficar pervetendo a melodia", fala. Os maneirismos vocais improvisados que remetem a Ella Fitzgerald mesclam com bons momentos de arranjos e melodias que lembram uma Peggy Lee mais rock and roll ("Na Medida do Impossível"), mas flertam também com um reggae inexpressivo ("Sempre Com Você").
Além de Liminha na coordenação e como parceiro na composição, Ana recebe como convidados Arnaldo Antunes (com quem dividiu cinco temas) e Dadi Carvalho (Novos Baianos e Barão Vermelho). Gilberto Gil empresta sua "Chuck Berry Fields Forever" para Ana e é quem executa o violão na música. "Acho a letra uma pérola da música brasileira, me identifico com a passagem que diz que 'rock é o nosso tempo', porque eu estou descobrindo o rock".
A cantora se preocupa também com a estética de seu trabalho. Mesmo em tempos de internet, em que o encarte que acompanham os CDs parece uma peça antiquada, os discos de Ana Cañas vêm bem acompanhados por arte elaborada com fotos e design. "Eu tenho um irmão fotógrafo, convivo com artistas plásticos e sempre me questiono: qual é a imagem que vou trazer para complementar o disco?'. Tenho o hábito de ir à loja e comprar um CD porque gostei da capa. Acho relevante e penso nisso porque eu sou assim".